Vogue | Crises de ansiedade são o novo normal? Como a pandemia está redesenhando a nossa saúde mental
Um recente relatório da Organização Mundial de Saúde mostra que a cabeça das pessoas não vai nada bem. Como anda a sua?
Ansiedade (Foto: Arquivo Vogue/ Gui Paganini)
Os números são expressivos: antes da pandemia, cerca de 193 milhões de pessoas tinham transtorno depressivo e 298 milhões tiveram transtornos de ansiedade em 2020. Com o ajuste feito pela OMS por causa do covid-19, as avaliações preliminares mostraram um aumento significativo nesses casos: quadros depressivos subiram para 246 milhões e de ansiedade para 374 milhões. “Acredito que a pandemia acabou interferindo nesse crescimento, sobretudo, por dois fatores: primeiro, porque as pessoas, de uma hora para outra, se viram em uma condição completamente diferente da que estavam acostumadas. Trancadas em casa, muitas perdendo emprego, passando 24 horas por dia com marido, filhos ou outros familiares, convivendo, diariamente, com muitas incertezas”, diz Liliana Seger, doutora em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e coordenadora do Programa para o Transtorno Explosivo Intermitente, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (Faculdade de Medicina da USP). “O segundo fator é que o lockdown obrigou a gente a sair do modo automático de levar uma vida voltada para o lado de fora, cheio de distrações. Passamos a olhar mais para nós mesmas, a ter mais consciência do que acontecia dentro de nós — e nos demos conta de que a saúde mental estava afetada”, completa a especialista.
Em termos gerais, ansiedade é uma preocupação excessiva ou constante de que algo negativo vai acontecer. Sem uma razão específica. Ou, como exemplificou Liliana, é uma pessoa querendo controlar algo que não pode ser controlado. Sentir-se ansioso antes de uma entrevista de trabalho, de receber o resultado de um exame médico, de fazer uma apresentação ou entrar no avião, faz parte. Afinal, é do ser humano querer ter controle sobre o que vai acontecer. Vira problema quando o frio na barriga, coração acelerado, suor frio passam a ser frequentes. “É muito importante perceber os sinais. Se esses sentimentos passam a atrapalhar o dia a dia, interferindo nas decisões, paralisando, não estamos mais falando daquela ansiedade normal”, avisa a especialista.
Quando pedir ajuda
Segundo o último levantamento da Organização Mundial da Saúde sobre o ranking de países mais ansiosos, de 2019, o Brasil lidera a lista – são quase 10% da população. Além da instabilidade social, econômica e política que vivemos, o que também colabora para esse posto nada honroso é o estereótipo, o preconceito e a descriminação que ainda rondam o tema de saúde mental por aqui. Por medo de serem tachadas de fracas, descontroladas, instáveis, muitas pessoas fecham os olhos para esses sentimentos e empurram os sintomas goela abaixo, como naquele antigo (e triste) ditado “engole o choro”.
Essa negação tem, sim, um preço. “O que poderia ser uma ansiedade natural, quando não tratada, pode evoluir para um quadro crônico, de crises de ansiedade mesmo”, explica Liliana. E como saber que a sensação não é mais inofensiva? Preste atenção nos sinais que o organismo estão mandando. Dificuldade para dormir – ou dormindo demais. Perda de apetite – ou comer exageradamente. Medo constante. Passar a fantasiar com coisas ruins o tempo todo. Não conseguir se concentrar. O corpo avisa. “Costumo dizer que depressão é excesso de passado, e ansiedade é excesso de futuro. Prestar atenção no presente. Focar no que está fazendo no momento – e não no que ainda não aconteceu –, é um dos melhores exercício para combater a ansiedade”, ensina a psicóloga.
E quando procurar ajuda? “Quando a pessoa não consegue sair desse ciclo ansioso sozinha, é preciso buscar um apoio profissional, um psicólogo ou, em alguns casos, um psiquiatra. Porque, saber o que precisa fazer para controlar uma crise, a maioria já sabe: respirar fundo, se exercitar, fazer meditação, yoga… Mas, então, por que não faz? Porque não consegue. A ansiedade já começou a paralisar e a atrapalhar as ações”, explica Liliana. E você, a quantas anda sua saúde mental?
Fonte: Vogue Brasil