VivaBem UOL | Tá nervoso? Vai pescar! Sugestões de ditados populares acalmam mesmo?
"Quem canta seus males espanta", já dizia Dom Quixote, personagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes, mais de 400 anos atrás. Mas esse não é o único e conhecido ditado popular sobre o que fazer diante de um problema, ou dificuldade, para liberar tensões e obter algum alívio emocional. "Tá nervoso? Vá pescar" é outro, com o mesmo sentido de se buscar uma atividade que pode ser prazerosa, ou que distraia e até ajude a refletir e tomar decisões.
"Esses ditados populares antigos fazem muito sentido ainda hoje. Embora não houvesse no passado pesquisas científicas suficientes para provar as vantagens das atividades sugeridas, como cantar, pescar, entre outras, as pessoas percebiam na prática que realmente ajudavam e garantiam bem-estar", informa Yuri Busin, psicólogo pós-graduado pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e doutor em neurociência do comportamento.
Busin continua que essas atividades servem para se fazer o que chama de um balanço emocional. "Emoções duram, em média, até 90 segundos, o problema é que as pessoas costumam reprocessá-las várias vezes, sentindo a repercussão de seus efeitos, daí a necessidade de se buscar e introjetar emoções positivas por meio da realização de atividades, para amenizar ou diluir o impacto das negativas e impossíveis de serem eliminadas completamente do dia a dia".
Servem para todo mundo?
Diversos estudos, como um publicado em março na revista JAMA Network Open, apontam que cantar, tocar ou ouvir música faz muito bem à saúde mental, comparado em ganhos de bem-estar, por exemplo, ao de se praticar exercícios para perda de peso.
Quanto à pescaria, exercita paciência, concentração, autoconfiança e permite ao indivíduo desfrutar do contato com a natureza e interagir, contar histórias, fazer amizades e dividir experiências.
No entanto, são atividades que não necessariamente vão funcionar para todos. "Trazem, eventualmente, benefícios cerebrais, como liberação de neurotransmissores do prazer, mas [as vantagens] dependem também das características individuais. Existem diferenças de personalidade e a capacidade cognitiva de cada um vai determinar como se sente e reage", explica Liliana Seger, doutora em psicologia pelo IPUSP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo).
Segundo ela, existem teorias de que indivíduos introvertidos estariam mais propensos a usar a música como uma regularizadora emocional, para melhorar ou alterar o humor, e que para os extrovertidos e engajados intelectualmente ela serviria melhor para a concentração do que relaxamento. Mas, ainda assim, diz ser muito variável: "Há quem escute música tranquila e apresente boa produtividade e há quem fique muito estressado, piore em ver de melhorar".
"Quem canta seus males espanta" é mais verdade do que parece
Imagem: Getty Images
Cuidado com o que escolher para relaxar
Se uns preferem atividades passivas, como as já citadas, além de assistir a filmes, ler livros, com o intuito de relaxar, desligar-se dos problemas, outros preferem atividades ativas, que são aquelas que exigem a produção de algo, em vez do consumo. Os dois tipos repercutem em bem-estar imediato, mas a prática esportiva, que é uma atividade ativa, por exemplo, também ajuda no longo prazo, pois beneficia a saúde física, que está relacionada e interfere na mental.
No que compete especificamente a gritar e bater em um saco de pancada, ou boneco, pode ajudar momentaneamente a extravasar o que se sente, mas não trata a causa, como pode piorar quadros de estresse e raiva. "Bater, gritar, xingar vai aumentar o grau de agressividade, treinar o cérebro a reagir dessa forma toda vez que aparecer um contratempo, o que não é positivo", aponta Eduardo Perin, psiquiatra pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e pelo HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).
O médico reforça que, em vez disso, é necessário aprender a desenvolver o autocontrole e o gerenciamento de emoções difíceis com a ajuda de especialistas em saúde mental. Buscar um passatempo, uma distração é bem-vindo, mas, estando num momento delicado, de extrema tensão, que seja direcionado primeiro à reflexão, avaliação de soluções e equilíbrio. Ele indica meditação, acupuntura, ioga, pintura, atividades físicas e de lazer, com os amigos e ao ar livre.
Que tal experimentar?
Os entrevistados concordam que, na busca por estabilidade emocional e psicológica, também vale aderir a um costume antigo, que pode até parecer coisa de adolescente, mas que de tempos para cá tem sido muito indicado também na fase adulta: manter um diário. Por meio da escrita é possível expressar e reavaliar sentimentos, processar melhor acontecimentos, organizar ideias e encontrar respostas, reconhecer falhas e progressos, agradecer conquistas.
"Faz você entrar em contato consigo mesmo. Da mesma forma que escrever poesias, uma carta para si mesmo quando irritado, chateado, como se fosse entregar essas palavras também para alguém envolvido", informa Leide Batista, psicóloga pela Faculdade Castro Alves, em Salvador (BA), complementando que, às vezes, esse tipo de estratégia é usada em psicoterapia para o paciente estabelecer e se situar em uma linha do tempo, podendo cooperar, ou não.
Não se pode falar em certezas, porque algumas pessoas travam quando o assunto é exprimir o que sentem, por isso o conselho é procurar por aquilo que goste, ou tenha interesse e curiosidade, mas sem cobranças. Na dúvida, abra-se às experimentações e sugestões, pois, como informa Busin, tem gente que não se sente motivado, então requer praticar algo de antemão para, depois, mais consciente, buscar se empenhar de verdade.
Fonte: VivaBem UOL